Lembro da minha casa de Bebedouro, interior de S√£o Paulo, onde o meu quarto era um mundo √† parte. Eram duas camas de solteiro, uma do lado da outra, de madeira maci√ßa escura e cabeceira entalhada. Cobertas com colcha de croch√™ feitas pela minha v√≥, com perfei√ß√£o, com linha cor laranja-avermelhado. Achava lindo ver o len√ßol-de-baixo pelos furinhos da trama desenhada. A minha cama ficava de frente para a porta e a outra de frente para o meu guarda-roupa, quase encostada na parede da janela, que dava para o corredor externo e estreito, onde o sol conseguia entrar de vez em quando. Do outro lado da minha cama ficava a estante, com os meus poucos brinquedos e bibel√īs. A estante e o guarda-roupa eram da mesma fam√≠lia das camas: de madeira maci√ßa escura, com detalhes torneados.

Toda a arruma√ß√£o e a organiza√ß√£o dos objetos na estante tinham um porqu√™. Uma l√≥gica harm√īnica dentro do meu universo particular e secreto. T√£o secreto que ningu√©m sabia que eu falava com as coisas e elas comigo. Elas contavam as suas hist√≥rias e tamb√©m guardavam as minhas. Pediam para mudar de lugar ou para ficar mais perto de outra coisa “amiguinha”. Umas eram novas e outras j√° carregavam as marcas do tempo de brincadeiras. De vez em quando ficavam tristes, mas na maioria das vezes cheias de euforia e alegria, querendo brincar, para se sentirem vivas. Os meus brinquedos precisavam ser tocados para se sentirem vivos. Era assim que a m√°gica acontecia. Ao toc√°-los me conectava com a personalidade de cada um, com um mundo de possibilidades, de sonhos m√°gicos, de cenas fant√°sticas. Cada brincadeira uma viagem, uma jornada, um di√°logo inesperado e espont√Ęneo.

Tudo se abria e era revelado. Resist√≠amos um pouco para retornar, para encerrar as viagens di√°rias. Se deixassem, eu, os meus brinquedos e os meus bibel√īs fic√°vamos ali horas e horas. Naquele mundo imagin√°rio, onde a liberdade era deliciosa. O retorno exigia o fim da “bagun√ßa” e arruma√ß√£o impec√°vel. Tudo tinha que voltar para o seu lugar, est√°tico, silencioso, contido. Minha m√£e tinha t√©cnicas muito eficientes para eu manter o quarto em ordem. Tudo leva a crer, que foi nesse quarto do interior que tive aulas e aulas de organiza√ß√£o de ambientes. Personal Organizer desde crian√ßa! Pensar que nesse quarto, ainda menina, j√° experimentava a sensa√ß√£o de estar rodeada por aquilo que √© especial. Pensar que era o in√≠cio dessa minha jornada, cheia de conversas secretas com as minhas coisas, uma ap√≥s a outra, que me trouxeram at√© aqui. Quanta gratid√£o!

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