QUARTO DO INTERIOR

por Luciana Costantin

 

Lembro da minha casa de Bebedouro, interior de São Paulo, onde o meu quarto era um mundo à parte. Eram duas camas de solteiro, uma do lado da outra, de madeira maciça escura e cabeceira entalhada. Cobertas com colcha de crochê feitas pela minha vó, com perfeição, com linha cor laranja-avermelhado. Achava lindo ver o lençol-de-baixo pelos furinhos da trama desenhada. A minha cama ficava de frente para a porta e a outra de frente para o meu guarda-roupa, quase encostada na parede da janela, que dava para o corredor externo e estreito, onde o sol conseguia entrar de vez em quando. Do outro lado da minha cama ficava a estante, com os meus poucos brinquedos e bibelôs. A estante e o guarda-roupa eram da mesma família das camas: de madeira maciça escura, com detalhes torneados.

Toda a arrumação e a organização dos objetos na estante tinham um porquê. Uma lógica harmônica dentro do meu universo particular e secreto. Tão secreto que ninguém sabia que eu falava com as coisas e elas comigo. Elas contavam as suas histórias e também guardavam as minhas. Pediam para mudar de lugar ou para ficar mais perto de outra coisa “amiguinha”. Umas eram novas e outras já carregavam as marcas do tempo de brincadeiras. De vez em quando ficavam tristes, mas na maioria das vezes cheias de euforia e alegria, querendo brincar, para se sentirem vivas. Os meus brinquedos precisavam ser tocados para se sentirem vivos. Era assim que a mágica acontecia. Ao tocá-los me conectava com a personalidade de cada um, com um mundo de possibilidades, de sonhos mágicos, de cenas fantásticas. Cada brincadeira uma viagem, uma jornada, um diálogo inesperado e espontâneo.

Tudo se abria e era revelado. Resistíamos um pouco para retornar, para encerrar as viagens diárias. Se deixassem, eu, os meus brinquedos e os meus bibelôs ficávamos ali horas e horas. Naquele mundo imaginário, onde a liberdade era deliciosa. O retorno exigia o fim da “bagunça” e arrumação impecável. Tudo tinha que voltar para o seu lugar, estático, silencioso, contido. Minha mãe tinha técnicas muito eficientes para eu manter o quarto em ordem. Tudo leva a crer, que foi nesse quarto do interior que tive aulas e aulas de organização de ambientes. Personal Organizer desde criança! Pensar que nesse quarto, ainda menina, já experimentava a sensação de estar rodeada por aquilo que é especial. Pensar que era o início dessa minha jornada, cheia de conversas secretas com as minhas coisas, uma após a outra, que me trouxeram até aqui. Quanta gratidão!

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