RAPTO RÁPIDO

por Luciana Costantin

 

Tente falar o título desse Post bem rápido e em voz alta. Não é difícil?! Confesso que tenho dificuldade. Sempre que tento, tenho que me concentrar e pensar para falar. RA-P-TO_RÁ-PI-DO. Sinto a necessidade de diminuir a velocidade de cada sílaba que sai da minha boca, para articular melhor os lábios e pronunciar cada palavra, com o seu som e significado únicos.

Rapto – ação de arrastar, de levar à força, roubo, arrebatamento, êxtase.

Rápido – que se move com rapidez, que se faz com rapidez, veloz, ligeiro, instantâneo.

Palavras semelhantes grafica e sonoramente, que quase se duplicam quando pronunciadas sequencialmente e com velocidade. Surgiram durante uma vivência terapêutica particular e têm me acompanhado por essas duas últimas semanas. Lembro de tentar manter o foco e a presença para seguir a voz e a condução da minha terapeuta, mas era, sequencialmente, arrastada por um vento forte, um furacão. Essa sensação mexeu muito comigo e ainda vem ecoando dentro de mim.

Consegui visualizar os mecanismos e os vários momentos onde acabo raptada rapidamente no meu dia a dia. Você já deve ter experimentado a sensação de estar decidido e confiante para executar um projeto, importante e desejado. Lembra de ter evocado todas as forças de concentração, foco e presença disponíveis em você, sustentado isso por alguns minutos e, de repente, sem saber como e quando, se distraiu e começou a fazer outra coisa? Pois bem, você já foi raptado, e passou a ser refém de alguém, de algo, de uma situação, ou de você mesmo.

Passei a vida fazendo coisas para as outras pessoas. Sabe aquela velha e conhecida necessidade de ser amada, aceita, reconhecida? De deixar os tristes, felizes; os frustrados, animados; a família toda orgulhosa e de ter cia. nos momentos bons, sem culpa? Oh, Yes! Esse condicionamento vem, desde sempre, me raptando de mim mesma. Fico imaginando quantos fios invisíveis saíram e saem de mim diariamente, alimentando essas relações e os “gatos” de energia. Mesmo levando consciência para tudo isso, mesmo me exercitando diariamente para me manter inteira, sustentando a minha verdade e respeitando a minha integridade, acabo refém. Cada vez mais consciente, cada vez volto mais rápido para o meu eixo, o meu centro, mas ainda refém.

 

“Estamos tão empenhados em realizar determinados feitos, com o propósito de atingir objetivos de um outro valor, que nos esquecemos de que o valor genuíno, o prodígio de estar vivo, é o que de fato conta.”

Joseph Campbell em O Poder do Mito

(com Bill Moyers)