TIRANDO OS SAPATOS

por Luciana Costantin

 

A vontade de tirar os sapatos logo na porta de entrada de casa surgiu em mim em algum momento em que olhei para eles e eles representaram o peso do dia lá fora. Tirá-los ao abrir a porta de casa trazia um alívio, era a senha de acesso para o meu mundo, a conexão Bluetooth com a minha casa. O contato dos meus pés com o chão geladinho do hall no verão e o tapete quentinho e macio no inverno me re-conectava com o meu porto seguro, mudava o meu padrão energético e me acolhia gostoso. Sei que esse é um hábito conhecido no mundo todo, praticado em muitas casas brasileiras, americanas, europeias e orientais. Além de ser muito mais higiênico, ajuda muito na limpeza.

 

 

As casas mais tradicionais do Japão possuem um mini cômodo na entrada só para isso: o chamado Genkan (fala Guencan). É uma espécie de hall, um ambiente de entrada, onde o piso é construído em desnível em relação ao restante da casa, revestido com um material diferente, protegendo o interior da rua. Não se pisa no Genkan com os sapatos usados no interior da casa e vice-versa. Os sapatos são arrumados voltados para a rua e as pessoas calçam chinelos (eu pantufas!) para serem usados no interior da casa. Fazem isso nas próprias casas, nas casas de outras pessoas e mesmo em outros estabelecimentos: escritórios, escolas, templos…

Não deixa de ser um gesto de respeito e humildade em relação à casa alheia e aos espaços comunitários. Também carrega um valor espiritual, impedindo que as impurezas energéticas e espirituais, individuais e coletivas, interfiram na harmonia dos ambientes.

Apesar da minha descendência italiana, me sinto um pouco japonesa em algumas rotinas de casa: a organização, o respeito, a leveza, os rituais de autocuidado, a respiração. Hábitos de conexão e empatia. Acredito que, quando estamos com o nosso campo energético ativado para nos conectarmos com o campo dos ambientes e do Universo, acessamos ensinamentos milenares e, de forma “intuitiva”, conseguimos aplicá-los no nosso dia a dia. Também acredito que eles chegam até nós de várias formas: uma conversa com um amigo, um email, uma foto no Pinterest ou no Instagram, um objeto, um aroma, uma história de vida ou um insight depois de um cochilo no sofá de casa.

O hoje, o agora, podem estar disponibilizando inúmeros arquivos, bibliotecas de ensinamentos. Vamos ativar o Bluetooth particular, despertando para aquilo que é importante para cada um de nós. Viva!