Vamos nos Permitir

por Luciana Costantin

 

Existem várias teorias e vários caminhos na tentativa de explicar a nossa realidade, micro e macro, pessoal e mundial. Como chegamos até aqui e onde vamos chegar se continuarmos assim? Em que momento começamos a nos afastar da nossa ‘essência humana’? Quando começamos a não nos reconhecer como iguais em espécie? Quando começamos a renegar nossa natureza, nossos ancestrais, nossos valores, nossa casa, nossos templos?

Dia desses, assistindo a uma aula do Professor e Doutor Keith Critchlow, sobre Geometria Sagrada, me vi diante de uma das possíveis explicações. Segundo ele, nos foram revelados quatro níveis de entendimento: 1.espiritual, 2.cultural, 3.social e 4.material. Todos fazem parte um do outro ou refletem um ou outro, num processo cíclico e contínuo. Mas hoje, a maioria das pessoas está sendo levada a acreditar que só existe o mundo material, as necessidades materiais, a existência material, o corpo. Um verdadeiro processo de “desumanização” e desequilíbrio.

 

Tempo

Não temos tempo para nós, para o outro, para os filhos, os nossos pais, para os amigos, para comer bem, ouvir e sentir o corpo. Zombamos dos nossos ancestrais do alto da nossa arrogância e prepotência tecnológica. Esquecemos e fazemos questão de apagar os caminhos que nos trouxeram até aqui. Nossa casa virou uma hospedaria: só para dormir e tomar banho. Nosso corpo virou um veículo: só para nos locomover e comer. Aliás, descontamos nele as nossas frustrações e ansiedades. Não temos tempo para perder com vínculos afetivos, com conversas, com olhares prolongados, com distrações chatas. Tudo de legal, de muito bacana, está dentro de um aparelho celular. Restringimos o nosso campo de visão, perdemos a nossa conexão visual com os outros humanos, com os animais, com a natureza. Ahhhh! Como é bom viver a vida do outro, não?! Tão perfeita, tão desejada, tão feliz, tão bem representada por Emojis, tudo tão… artificial, tão distante. Como é fácil resolver os problemas e os impasses do outro, só com comentários e mais trocas de comentários. Como é bom apontar o dedo pro outro e nos sentir perfeitos.

 

Transição

Ainda segundo Prof Keith, a boa notícia é que tudo (absolutamente tudo) está em transição. O processo de união dos quatro níveis de entendimento, dos quatro mundos, das quatro estações do ano, os quatro sentidos, é circular e contínuo, controlado por uma força invisível e central, inerente a nossa vontade. Uma vez iniciada a jornada, não temos como parar, continuamos viajando, migrando e revisitando os demais níveis. Lembrando que somos mais que um corpo, uma mente.

Olhar

E nós? O que podemos fazer ‘hoje’ para contribuir com o processo de humanização, com o retorno a nós mesmos e ao outro? Olhar! Olhar nos olhos de alguém, por um minuto, que seja. Sem julgamento, com compaixão. Exercitar a presença enquanto olha. Expandir esse olhar para o ‘todo’ e o ‘nada’, para as possibilidades, as diferenças, a riqueza dos detalhes. Tem o ditado que diz “os olhos são a janela da alma”. Vamos abrir essa janela. Vamos nos permitir ser vulneráveis e humanos.

“Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade
Pra dizer mais sim do que não, não, não

Hoje o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir”
Lulu Santos

Trecho da Letra da Música “Tempos Modernos”, lançada em 1982… 37 anos e tão atual!